A Corrida Chinesa em IA vai Além dos Modelos: Baixas Custos, Produtos e Usuários Pagantes
Enquanto os gigantes globais dominam o palco, a China aposta na eficiência e na monetização real para superar a dependência de modelos avançados.

Em um cenário global onde titãs como a OpenAI e a Google continuam a disputar a liderança em modelos de linguagem gigantes, a China está redefinindo o que significa "liderar" no campo da inteligência artificial. Em um briefing online do 23º Seminário A-Share da UBS Securities, no dia 1º de setembro, especialistas da área apontaram que o foco da corrida chinesa tem se deslocado de meramente construir modelos de maior escala para alcançar uma eficiência real de custo, desenvolver produtos que se encaixem nos ecossistemas locais e, sobretudo, converter usuários em clientes pagantes.
### A crise de custos e a necessidade de otimização Até a metade de 2023, os custos associados ao treinamento de grandes modelos de IA – principalmente em termos de infraestrutura de GPU e energia – representavam uma barreira quase insuperável para empresas emergentes e startups. No entanto, a China tem investido pesadamente em tecnologias de computação de alto desempenho e em otimizações de algoritmos. Empresas como a Huawei, que desenvolveu a série Ascend de chips de IA, e a Cerebras Systems, que traz chips de memória massiva, têm oferecido alternativas que reduzem em 30% a 40% os custos de treinamento, tornando viável para empresas de médio porte criar modelos competitivos sem depender de centros de dados internacionais.
Xiong Wei, analista de internet da UBS Securities, destacou que "o verdadeiro ponto de virada não está apenas na escala do modelo, mas na sua aplicação prática e na capacidade de gerar receita sustentável". Em linhas de pensamento semelhantes, o CEO da Baidu, Robin Li, afirmou em um painel que o banco de dados interno de mais de 200 terabytes de conteúdo da internet chinesa é uma vantagem estratégica que permite treinar modelos localizados de forma mais econômica.
### Do modelo à monetização: produtos que geram receita Uma das críticas mais recorrentes à IA global tem sido o fato de que a maior parte de seu valor agregado permanece no domínio do conhecimento, sem necessariamente se traduzir em produtos tangíveis. A China, por outro lado, tem avançado na criação de soluções que se encaixam nos ecossistemas digitais do país. O ecossistema da Alibaba Cloud, por exemplo, oferece soluções de IA para comércio eletrônico que automatizam recomendações de produtos, análise de sentimento e previsão de demanda em tempo real, gerando lucros que já somam bilhões de dólares.
ByteDance, com seu motor de recomendação baseado em IA, demonstra que a combinação de dados de usuário e algoritmos de aprendizado profundo pode ser monetizada rapidamente. Em 2025, a receita proveniente de publicidade direcionada por IA da ByteDance já ultrapassou US$ 15 bilhões, representando um aumento de 27% em relação a 2024.
Além disso, Tencent tem investido em ferramentas de IA para gaming, como a plataforma de NPC inteligente que adapta diálogos e comportamentos dos personagens ao estilo do jogador. Essa aplicação não apenas aumenta o engajamento, mas também gera receita adicional através de microtransações e conteúdo exclusivo.
### Usuários pagantes: o novo modelo de receita Enquanto o mundo ainda discute a viabilidade de modelos baseados em assinatura, a China está experimentando com modelos de assinatura de uso e microtransações em serviços de IA. O serviço de tradução instantânea da iFlytek, que oferece pacotes de palavras por mês, já atingiu mais de 30 milhões de usuários pagantes. A plataforma de diagnóstico médico da Ping An Good Doctor utiliza IA para triagem de sintomas e, em parceria com hospitais, cobra uma taxa fixa por consulta virtual.
De acordo com dados da consultoria IDC, o número de usuários que pagam por serviços de IA na China ultrapassou 15 milhões no último trimestre, um aumento de 19% em relação ao mesmo período de 2023. Esse crescimento indica que os consumidores chineses estão dispostos a pagar por experiências de IA que tragam valor tangível e personalizado.
### Implicações geopolíticas e competitividade global A estratégia chinesa tem implicações significativas para o cenário geopolítico. Ao reduzir a dependência de chips de IA fabricados nos Estados Unidos e desenvolver sua própria cadeia de suprimentos, a China diminui a vulnerabilidade de seus ecossistemas de IA a sanções e restrições comerciais. Isso pode acelerar a consolidação de uma independência tecnológica que tem sido alvo de preocupação dos EUA e da União Europeia.
Ao mesmo tempo, a eficiência de custos e a rápida monetização criam um modelo de negócio mais resiliente. Empresas como a Huawei, Baidu e Tencent já se posicionam como concorrentes de peso em setores como automação, saúde e finanças, competindo diretamente com empresas ocidentais de tecnologia.
Para o Brasil e a América Latina, a corrida chinesa oferece oportunidades de parceria e de adoção de soluções de IA já testadas. O mercado brasileiro, por exemplo, pode se beneficiar das plataformas de recomendação de comércio eletrônico da Alibaba Cloud e das soluções de diagnóstico médico da Ping An, reduzindo custos de implementação e acelerando a digitalização de serviços públicos e privados.
### Perspectivas futuras Segundo projeções, a taxa de crescimento anual composto (CAGR) do mercado global de IA deverá chegar a 26,3% até 2030. No entanto, a China já capturou 22% desse mercado, com expectativa de manter um crescimento acima da média global graças à sua abordagem de redução de custos e monetização direta.
Para garantir essa liderança, os líderes chineses continuam a investir em educação e talentos. Em 2024, o Ministério da Educação lançou o programa "AI Talent 2025", com foco em engenheiros de IA, pesquisadores e profissionais de ética de dados, assegurando que o país não fique à margem do avanço científico.
Em resumo, a corrida chinesa em IA demonstra que, embora os modelos sejam importantes, a verdadeira vantagem competitiva reside em transformar tecnologia em valor econômico real. Reduzir custos, criar produtos que atendam às necessidades do mercado e converter usuários em clientes pagantes são estratégias que já estão gerando retorno e que poderão definir o futuro da inteligência artificial no país e, potencialmente, no mundo.
Fonte original
TechNode
