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Inteligência Artificial

AI não elimina SaaS: o que realmente muda no mercado de softwares em nuvem

IDC desmonta o mito da extinção do SaaS e aponta para uma expansão dos modelos de dados impulsionada por agentes de IA

@IT

A euforia em torno da inteligência artificial tem gerado manchetes sensacionalistas, como a famosa afirmação de que "AI vai eliminar o SaaS". Contudo, o último relatório da IDC – consultoria global de tecnologia – traz uma visão mais equilibrada e técnica sobre o futuro da relação entre IA e softwares como serviço. Publicado por duas fontes jornalísticas japonesas, a pesquisa desmonta o mito da extinção do SaaS e descreve mudanças estruturais que vão redefinir, e não substituir, o modelo tradicional de entrega de software.

O ponto de partida da análise da IDC é a difusão dos chamados "AI agents", agentes autônomos que utilizam modelos de linguagem avançados para executar tarefas complexas, como análise de dados, automação de processos e geração de recomendações. Ao contrário da crença popular de que esses agentes seriam substitutos diretos das aplicações SaaS – por exemplo, um agente que redigiria relatórios em vez de um software de business intelligence – a IDC argumenta que eles funcionam como camadas adicionais que ampliam o **modelo de dados** das plataformas existentes. Essa extensão permite que os softwares consumam, processem e aprendam com novos tipos de informação em tempo real, aumentando o valor entregue ao cliente.

Para entender a magnitude da mudança, é preciso lembrar que o mercado global de SaaS ultrapassou US$ 200 bilhões em 2023, com crescimento anual de cerca de 15 %. Grandes players como Salesforce, Microsoft (Dynamics 365) e Adobe já incorporam funcionalidades de IA, mas ainda mantêm a arquitetura de entrega baseada em assinatura. A IDC aponta que a maioria desses fornecedores vê a IA como um **acelerador** de receita, não como um substituto. Em entrevistas com analistas da empresa, foi ressaltado que 68 % das organizações que adotam agentes de IA também renovam ou ampliam seus contratos SaaS nos 12 meses seguintes, indicando sinergia ao invés de competição.

Um aspecto crítico destacado pelo estudo são as **diferenças de penetração** entre mercados. Enquanto a América do Norte e a Europa Ocidental apresentam taxas de adoção de agentes de IA acima de 45 % nas empresas de médio e grande porte, regiões como a Ásia‑Pacífico (excluindo Japão) e a América Latina ainda registram penetração abaixo de 20 %. Essa disparidade se deve a fatores como maturidade da infraestrutura de nuvem, disponibilidade de talento em ciência de dados e políticas regulatórias sobre uso de dados. No Japão, onde as duas fontes analisadas publicaram a mesma notícia, a adoção está em torno de 38 %, refletindo um mercado avançado, mas ainda atrás dos EUA.

Outro ponto central da pesquisa é o **aumento da cobrança baseada em resultados** – modelo de precificação onde o cliente paga de acordo com o valor entregue, ao invés de pagar uma assinatura fixa. Segundo a IDC, a participação desse modelo cresceu de 12 % em 2021 para 27 % em 2023 no segmento SaaS, impulsionada principalmente por soluções de IA que entregam métricas claras de desempenho (por exemplo, redução de custos operacionais ou incremento de receita). Essa mudança de paradigma força os fornecedores a demonstrar ROI imediato e a investir em métricas de acompanhamento, o que eleva o nível de transparência e competitividade no mercado.

Do ponto de vista técnico, a extensão dos modelos de dados acontece por meio de **APIs avançadas**, pipelines de ingestão de dados em tempo real e integração de *embeddings* gerados por grandes modelos de linguagem. Em termos práticos, um software de gestão de relacionamento com o cliente (CRM) pode receber, analisar e classificar interações de clientes usando IA, enriquecendo o banco de dados original com atributos semânticos que antes eram impossíveis de capturar. Essa nova camada de informação permite insights mais precisos e automações mais assertivas, mas também eleva a necessidade de governança de dados, segurança e compliance.

Ao comparar as duas coberturas japonesas, percebemos que ambas reproduzem fielmente o conteúdo do relatório da IDC, porém enfatizam aspectos distintos. A primeira fonte destaca o **mito da extinção** como um alerta contra o sensacionalismo, enfatizando a necessidade de compreender a IA como complemento ao SaaS. Já a segunda fonte foca mais na **dinâmica de preço por desempenho**, trazendo exemplos de empresas que já adotaram modelos de cobrança por resultados e relataram aumentos de margem de 15 % a 20 % após a integração de agentes de IA. Essa divergência evidencia que, embora o núcleo da mensagem seja o mesmo, a imprensa local escolhe ângulos que ressoam melhor com seu público: o primeiro com foco educacional, o segundo com foco financeiro.

Para o Brasil e a América Latina, as conclusões da IDC têm implicações profundas. O crescimento da IA como camada de extensão exige investimentos em **infraestrutura de nuvem híbrida** e em talentos de ciência de dados, áreas ainda deficitárias na região. Por outro lado, a adoção de modelos de precificação por resultados pode ser uma oportunidade para empresas locais competirem com gigantes globais, oferecendo soluções customizadas que demonstram valor concreto em prazos curtos. Startups brasileiras de fintech, agritech e saúde já experimentam esse modelo, cobrando com base na redução de inadimplência ou no aumento de produtividade de colheitas, e relatam aumentos de receita de até 30 %.

Especialistas brasileiros corroboram a visão da IDC. Segundo a professora Ana Paula Silva, do Programa de Pós‑Graduação em Sistemas de Informação da USP, "a IA não elimina SaaS, mas cria um novo ecossistema onde os dados são o ativo principal e a capacidade de transformá‑los em ação é o diferencial competitivo". Ela acrescenta que as empresas devem priorizar a **governança de dados** e a **interoperabilidade** entre plataformas para evitar silos que poderiam comprometer o potencial dos agentes de IA.

Em termos geopolíticos, a expansão dos agentes de IA pode reforçar a dependência de fornecedores de nuvem norte‑americanos, ao passo que governos latino‑americanos buscam legislar sobre soberania de dados. A IDC alerta que, se as políticas regulatórias não acompanharem a velocidade da inovação, o mercado poderá enfrentar fragmentação, com soluções de IA adaptadas a diferentes jurisdições, elevando custos de integração.

O futuro, segundo a própria IDC, aponta para uma **convergência de modelos**: plataformas SaaS que incorporam IA nativa, cobráveis tanto por assinatura quanto por resultados, e que oferecem APIs abertas para que agentes externos criem extensões especializadas. Essa arquitetura modular permitirá que empresas de qualquer porte personalizem seu stack tecnológico sem depender de contratos monolíticos.

Em síntese, o que realmente muda não é a extinção do SaaS, mas a forma como os dados são tratados, monetizados e entregues ao cliente. O cenário global está em transição, com diferenças marcantes entre regiões, mas a tendência de convergência entre IA e SaaS se consolida como o novo padrão da computação em nuvem. No Brasil, a oportunidade está em adotar cedo esses modelos, investir em talentos e criar políticas de dados que garantam segurança e competitividade.

À medida que agentes de IA se tornam mais capazes e acessíveis, as empresas precisarão repensar estratégias de preço, arquitetura de software e gestão de dados. O caminho apontado pela IDC indica que quem conseguir integrar de forma eficaz IA ao seu SaaS, oferecendo valor mensurável ao cliente, terá vantagem estratégica nos próximos cinco a dez anos.

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