Cultura de IA em vez de ROI: líderes japoneses discutem DX
Em evento de tecnologia em Tóquio, os executivos da Nissin Foods, Ehara e Saison argumentam que a adoção de inteligência artificial deve ser impulsionada por uma cultura organizacional sólida, não apenas pela margem de retorno

A cena tecnológica de Tóquio foi palco de um debate que pode redefinir a forma como as empresas globais pensam sobre inteligência artificial. No dia 29 de setembro, na primeira edição do "Future Making Technology Expo – Nikkei Cross Tech NEXT Tokyo 2026", os CEOs e diretores de operações de três gigantes do varejo e alimentação japonesa – a Nissin Foods, a Ehara e a Saison – participaram de uma mesa‑redonda intitulada "AI Utilization, DX Leaders' Deep Discussion: Field Challenges and Breakthroughs". O que se viu foi uma conversa que vai além de métricas de ROI tradicional, apontando a cultura organizacional como o verdadeiro alicerce para a adoção bem‑sucedida de IA.
### 1. O Contexto do Debate
O evento foi organizado pela Nikkei BP, a maior editora de negócios do Japão, em parceria com a Cross Tech, uma plataforma de conferências que reúne especialistas em transformação digital (DX). O foco do encontro foi a intersecção entre IA e DX, uma temática que ganhou tração nos últimos anos, especialmente após a pandemia acelerar a migração para o digital.
Enquanto muitas organizações medem o sucesso de projetos de IA pelo retorno financeiro imediato, os participantes de Tóquio apontaram que a dependência excessiva do ROI pode inibir a experimentação e a inovação de longo prazo. Eles defenderam que a verdadeira vantagem competitiva advém de uma cultura que valoriza a curiosidade, a colaboração transversal e o aprendizado contínuo.
### 2. O Papel da Cultura na Adoção de IA
Na Nissin Foods, a diretora de inovação, Kazuko Yamaguchi, destacou que o maior obstáculo para a adoção de IA não é a falta de tecnologia, mas a resistência cultural às mudanças. “Se o seu time ainda acha que a melhor decisão é a que traz o lucro imediato, ele vai rejeitar qualquer nova ideia que não demonstre resultados em semanas”, afirmou.
Ehara, conhecido por suas estratégias de varejo omnicanal, compartilhou a experiência de integrar chatbots de atendimento ao cliente em tempo real. “O sucesso não foi apenas nas métricas de conversão, mas na forma como o departamento de marketing e o de logística começaram a colaborar para treinar o modelo de IA”, explicou.
Saison, por sua vez, trouxe à tona a importância de criar ambientes de experimentação. “Criamos laboratórios internos onde os funcionários podem testar novos algoritmos de recomendação sem medo de falhar. Esse espaço livre de punições cria uma mentalidade de ‘learn‑fast, fail‑fast’”, disse.
### 3. Impacto Técnico e Operacional
Do ponto de vista técnico, os três CEOs concordaram que a IA deve ser vista como uma extensão das operações existentes, não como um projeto isolado. Isso implica na criação de pipelines de dados robustos, na integração de APIs de terceiros e na capacitação de times de engenharia para trabalhar em ciclos ágeis.
Além disso, a discussão evidenciou que a governança de dados é essencial para evitar vieses e garantir transparência nos modelos. Os participantes citaram a importância de estabelecer comitês de ética e de monitoramento de desempenho contínuo.
### 4. Implicações Econômicas e Geopolíticas
A adoção de IA em escala industrial tem implicações econômicas significativas. No Japão, a taxa de adoção de IA em empresas de médio porte aumentou de 12% em 2018 para 29% em 2025, segundo o relatório do Ministry of Economy, Trade and Industry. Isso indica uma mudança de paradigma nas estratégias de crescimento.
Para o Brasil e a América Latina, o cenário é semelhante, mas com desafios adicionais: infraestrutura de dados em alguns países ainda é limitada, e a escassez de talentos em IA cria um gargalo. No entanto, o sucesso das empresas japonesas em transformar cultura pode servir de modelo.
### 5. Lições para o Mercado Brasileiro
- **Investir em Educação Corporativa**: Assim como as empresas japonesas criaram programas de treinamento internos, as multinacionais brasileiras podem fomentar parcerias com universidades para capacitar colaboradores. - **Fomentar Laboratórios de Inovação**: Espaços onde funcionários experimentam IA sem pressões de resultados imediatos podem acelerar a cultura de experimentação. - **Estabelecer Métricas de Cultura**: Além de ROI, métricas como a taxa de adoção de ferramentas, satisfação do colaborador e velocidade de lançamento de novas funcionalidades podem indicar maturidade cultural.
### 6. Perspectiva Brasileira e Latino‑Americanas
Na América Latina, a IA está ganhando ritmo, especialmente em fintechs e empresas de logística. No entanto, a falta de regulamentação clara e a preocupação com a privacidade de dados ainda representam barreiras. A discussão japonesa destaca a necessidade de diálogo entre governos, indústrias e academia para criar ecossistemas que incentivem a inovação.
Empresas brasileiras como a Magazine Luiza já demonstraram que a IA pode ser impulsionada por cultura, com a implementação de chatbots e sistemas de recomendação baseados em dados de comportamento de compra. A experiência dessas empresas pode ser ampliada aprendendo com os exemplos japoneses de governança e experimentação.
### 7. O Futuro da IA e DX no Brasil
O cenário aponta para uma tendência crescente em que a IA se torna uma ferramenta intrínseca à estratégia de negócio, e não apenas um projeto de TI. Empresas que investirem na criação de culturas digitais resilientes estarão melhor preparadas para lidar com as rápidas mudanças de mercado.
O debate de Tóquio também sugere que a jornada de transformação digital deve incluir não apenas a tecnologia, mas também a re‑engenharia de processos, a criação de novos papéis organizacionais (como Chief AI Officer) e a definição de políticas de ética.
### 8. Conclusão
O evento Nikkei Cross Tech NEXT Tokyo 2026 demonstra que a cultura organizacional é um fator determinante na adoção bem‑sucedida de inteligência artificial. Os líderes da Nissin Foods, Ehara e Saison mostraram que, quando as empresas mudam seu foco do ROI imediato para a criação de ambientes que favoreçam a experimentação, aprendizado e colaboração, a IA pode ser integrada de forma sustentável e escalável. Esse modelo oferece valiosas lições para o Brasil e a América Latina, onde a necessidade de inovação rápida e responsável é cada vez maior.
À medida que a tecnologia continua a evoluir, a verdadeira vantagem competitiva será determinada não apenas pelas ferramentas que se têm, mas pela capacidade de criar culturas que as adotem, adaptem e, acima de tudo, aprendam com elas.
Fonte original
Nikkei xTECH
