Estados Unidos reverte metas de eficiência energética: o retrocesso de 34,9 mpg e seus impactos globais
Administração Trump aprova redução drástica nos padrões de consumo de combustível para automóveis, ameaçando avanços climáticos e influenciando políticas automotivas no Brasil e na América Latina

Em 3 de dezembro de 2025, dentro da histórica Sala Oval da Casa Branca, o presidente Donald Trump assinou a última etapa de um plano que promete transformar o cenário da mobilidade nos Estados Unidos. O Departamento de Transportes (DOT) oficializou a diminuição dos padrões de consumo de combustível para veículos de passeio e utilitários, fixando a meta de eficiência média da frota em 34,9 milhas por galão (mpg) para o ano‑modelo 2025‑2026. Essa cifra está a menos de 5 mpg da meta de 30,1 mpg estabelecida em 2024 e, sobretudo, muito abaixo da ambiciosa meta de 50,4 mpg que o governo Biden havia projetado para 2031. A mudança, descrita pelo DOT como "uma das maiores ações de desregulamentação sob a segunda administração Trump", tem implicações que vão muito além da simples redução de números de consumo; ela atinge a saúde pública, a competitividade industrial e as metas climáticas globais.
A decisão surge em um momento de crescente pressão internacional por políticas de descarbonização. Enquanto a União Europeia avançava com sua diretiva de veículos zero emissões, visando retirar de circulação 100% dos veículos a combustão até 2035, os EUA, que ainda ocupam a liderança mundial em produção automotiva, dão um passo atrás. O retrocesso desfaz quase sete anos de trabalho conjunto entre agências como a Agência de Proteção Ambiental (EPA) e o DOT, que haviam implementado, a partir de 2022, um cronograma de elevação progressiva da eficiência, apoiado por incentivos fiscais para veículos híbridos e elétricos. O novo patamar de 34,9 mpg, ao que tudo indica, será mantido até ao menos 2031, dificultando ainda mais a transição para frotas mais limpas.
Do ponto de vista econômico, a administração Trump justifica a medida como uma forma de reduzir o custo de aquisição de veículos, alegando que a diminuição dos padrões de eficiência economizará US$ 1.300 por carro para o consumidor médio. Essa estimativa, porém, ignora o custo total de propriedade (TCO) que inclui o gasto com combustível ao longo da vida útil do veículo. Estudos do Departamento de Energia (DOE) indicam que, para um automóvel percorrendo 15 mil milhas por ano, a diferença entre 34,9 mpg e 50,4 mpg pode representar até US$ 4.500 a mais em despesas de combustível ao longo de oito anos. Assim, a economia inicial pode ser rapidamente anulada por gastos operacionais superiores, sobretudo em regiões onde o preço da gasolina permanece acima da média histórica.
A reação dos grupos de defesa do consumidor, saúde pública e ambientais foi imediata e contundente. Organizações como a Environmental Defense Fund (EDF), a American Lung Association e o Center for American Progress emitiram notas críticas, destacando que a redução dos padrões de eficiência provocará um aumento de cerca de 2,3 milhões de toneladas de CO₂ anualmente, equivalente à emissão de 500 mil residências americanas. Além do impacto climático, há o efeito direto sobre a saúde: maiores níveis de poluentes atmosféricos (NOx, particulados finos) são associados ao aumento de casos de asma, bronquite crônica e até mortalidade prematura. Um relatório da Health Effects Institute estima que a deterioração dos padrões poderia gerar mais de 3 mil mortes evitáveis nos EUA a cada década.
Do ponto de vista industrial, o retrocesso pode gerar consequências inesperadas. Grandes montadoras como General Motors, Ford e Stellantis já haviam investido bilhões de dólares em plataformas híbridas e elétricas para cumprir as metas de 2027‑2031. A mudança repentina cria um risco de " ativos encalhados", pois veículos já em fase de desenvolvimento podem se tornar incompatíveis com as novas exigências de eficiência. Ao mesmo tempo, fabricantes de motores a combustão interna, especialmente os que dependem de tecnologias de alta compressão, podem ver uma recuperação temporária de demanda, mas correm o risco de perder competitividade nos mercados internacionais, onde normas mais rígidas permanecem vigentes.
A perspectiva brasileira adiciona camadas de complexidade. O Brasil, embora ainda dependente de veículos flex fuel (álcool e gasolina), tem avançado na adoção de veículos elétricos e híbridos, impulsionado por incentivos fiscais e pelo Programa de Veículos de Emissões Zero (PEVZERO). As políticas de eficiência dos EUA historicamente serviram como referência para acordos bilaterais de comércio e para a definição de padrões de emissão na América Latina. Uma diminuição dos padrões americanos pode enfraquecer a pressão sobre o Brasil para elevar suas próprias metas, especialmente no âmbito da Aliança para o Progresso Verde, que busca alinhar as políticas ambientais da região com as diretrizes do Acordo de Paris. Contudo, especialistas como a professora Ana Cláudia Ramos, do Instituto de Energia e Meio Ambiente da USP, alertam que o retrocesso dos EUA pode, paradoxalmente, estimular o Brasil a acelerar a transição, aproveitando a oportunidade de se posicionar como líder em mobilidade sustentável na região.
Além do aspecto regulatório, a medida tem repercussões geopolíticas. A competitividade dos veículos americanos no mercado global depende, em grande parte, da capacidade de oferecer tecnologias de baixo consumo e baixas emissões. Países como a China e a Índia já implementaram padrões de eficiência que forçam seus fabricantes a inovar. Se os EUA reduzirem seus requisitos, corre-se o risco de perder participação de mercado para concorrentes que já entregam veículos mais limpos, impactando a balança comercial automotiva. Ademais, a decisão pode comprometer a credibilidade dos EUA em negociações climáticas multilaterais, como a Conferência das Partes (COP), onde o país costuma assumir papéis de liderança.
Do ponto de vista técnico, a redução para 34,9 mpg significa que os fabricantes não precisarão mais empregar tecnologias avançadas como turbocompressores de alta pressão, sistemas de start‑stop de última geração, ou mesmo otimizações aerodinâmicas extremas. Em vez disso, poderão focar em motores de maior deslocamento, que geralmente produzem mais torque, mas consomem mais combustível. Essa flexibilização pode favorecer modelos de SUV e picapes, segmentos que já são populares nos EUA e que, historicamente, apresentam menor eficiência energética. A tendência pode resultar em um aumento da frota de veículos mais pesados, exacerbando ainda mais as emissões per capita.
Ainda que o governo Trump argumente que a medida beneficia a classe média, ao tornar os veículos mais acessíveis, a análise macroeconômica sugere que os custos sociais – saúde, meio ambiente e infraestrutura – podem superar as supostas economias de curto prazo. A literatura econômica aponta que políticas de desregulamentação que reduzem padrões ambientais costumam gerar externalidades negativas que se traduzem em gastos públicos maiores, seja em tratamentos de saúde, seja em mitigação climática.
No cenário latino‑americano, a decisão pode servir como ponto de partida para discussões sobre a autonomia regulatória. Países como México, Argentina e Chile observarão atentamente se a flexibilização nos EUA será acompanhada por um recuo nas exigências de seus próprios acordos comerciais. O Mercosul, por exemplo, tem considerado a adoção de padrões de emissão harmonizados com os da UE; um retrocesso americano pode pressionar a aliança a reforçar seus próprios requisitos para evitar a fuga de investimentos para os EUA.
Em síntese, a finalização da regra que reduz os padrões de eficiência de combustível nos EUA representa mais que um ajuste numérico; é um movimento que reverbera em múltiplas dimensões — climática, econômica, de saúde pública, industrial e geopolítica. Enquanto a administração Trump enfatiza a redução de custos para o consumidor, a análise de especialistas indica que o preço real será pago em forma de emissões adicionais, riscos à saúde e perda de competitividade global. Para o Brasil, o desafio será transformar esse retrocesso externo em oportunidade para avançar nas políticas de mobilidade limpa, consolidando-se como referência em veículos de baixa emissão na América Latina. O futuro da mobilidade depende agora da capacidade dos governos, indústrias e sociedade civil de equilibrar interesses imediatos com a necessidade urgente de reduzir a pegada de carbono da frota mundial.
A longo prazo, a expectativa é que pressões internas – como a crescente demanda dos consumidores por veículos mais eficientes e a aceleração da adoção de carros elétricos – forcem o governo americano a rever novamente sua postura. Enquanto isso, a comunidade internacional observará atentamente se o retrocesso será permanente ou apenas um capítulo de uma política regulatória volátil, cujo desfecho determinará em grande parte o ritmo da transição energética global.
Fonte original
The Verge
