Fujitsu quebra o padrão de SI com o modelo FDE
Ao transferir contratos para unidades de negócio e cobrar por uso, a gigante japonesa repensa o papel do engenheiro de sistemas
Em 2024, enquanto grandes players de tecnologia no mundo redefinem modelos de negócio para acompanhar a digitalização acelerada, a Fujitsu, gigante japonesa de TI, está lançando uma proposta ousada que pode mudar a forma como o mercado de Service Integration (SI) funciona. O chamado FDE – Functional Development Engineer – propõe não apenas uma nova atuação de engenheiro, mas também uma ruptura na lógica tradicional de remuneração, que historicamente se baseava em horas ou “man-months”. Em vez disso, a Fujitsu está vendendo serviços por uso, atendendo diretamente às unidades de negócio e não mais apenas às equipes de TI corporativas. Essa mudança, embora pareça um detalhe operacional, traz profundas implicações para a estrutura corporativa, para a forma de se gerenciar projetos de TI e para a competitividade das empresas em todo o mundo.
### O modelo tradicional de SI e suas limitações Historicamente, a maioria das empresas de SI, especialmente na Ásia e na Europa, operava sob um modelo de contrato de man-month. O engenheiro, chamado de System Integration Engineer (SIE), era contratado por um período e sua remuneração era calculada em horas trabalhadas. Esse modelo favorecia a especialização estreita em tecnologias específicas, mas frequentemente gerava desconexão entre o que o cliente realmente precisava e o que o engenheiro entregava. Além disso, a cobrança por horas tornava os projetos suscetíveis a variações de escala: um pequeno ajuste no escopo pode inflar o custo final sem entregar valor proporcional.
Os consumidores – os departamentos de TI ou de negócios – acabam, muitas vezes, pagando por horas de trabalho que não correspondem a resultados tangíveis. Em mercados emergentes como o brasileiro, essa prática tem sido vista como um entrave à inovação, pois os recursos são alocados em manutenção de sistemas legados em vez de em projetos de transformação digital.
### O que é o FDE? O FDE, ou Functional Development Engineer, é um profissional que vai além da simples implementação de soluções. Segundo a própria Fujitsu, o engenheiro FDE “conhece profundamente o ambiente de produção do cliente, identifica as dores mais críticas e entrega soluções que se encaixam nos processos de negócio”. Em outras palavras, ele funciona como um consultor de negócios, com foco direto na geração de valor. Ele tem um conhecimento técnico sólido, mas a sua proposta de valor está alinhada aos objetivos estratégicos das unidades de negócio.
A diferença mais marcante é o método de cobrança. Em vez de ser pago em man-month, o FDE trabalha com um modelo de “utilização” – similar ao que vemos em plataformas de Software as a Service (SaaS). O cliente paga pelo uso real do serviço, o que incentiva a Fujitsu a entregar soluções que realmente gerem valor e que sejam escaláveis. Esse modelo também traz transparência, pois o cliente pode visualizar exatamente quanto está gastando e em que parte do projeto.
### Impactos técnicos e de governança Do ponto de vista técnico, o FDE abre espaço para práticas de DevOps e de entrega contínua. Ao se integrar ao fluxo de trabalho da unidade de negócio, o engenheiro tem a possibilidade de adaptar rapidamente o código e os processos. Isso facilita a adoção de metodologias ágeis, reduz o ciclo de vida de desenvolvimento e, por consequência, a janela de falhas.
Em termos de governança, o modelo FDE cria um canal direto entre o cliente e o provedor de serviços. Isso ajuda a reduzir a burocracia típica de grandes organizações, onde decisões de TI muitas vezes passam por vários níveis de aprovação. Com o FDE, a decisão de mudar uma funcionalidade ou de escalar a solução pode ser tomada rapidamente, o que é essencial em cenários de transformação digital.
### Impacto econômico e financeiro Para a Fujitsu, a mudança de modelo de remuneração representa uma oportunidade de criar receita recorrente mais previsível. O pagamento por uso permite que a empresa ajuste o faturamento de acordo com a demanda real, evitando picos de custo que ocorrem em projetos de man-month.
Para os clientes, o benefício está em custos alinhados ao valor entregue. Um estudo recente do Gartner, que analisou empresas globais de TI, mostra que 65% das organizações que adotaram modelos de cobrança por uso reduziram seus custos de TI em até 20% nos primeiros 18 meses. Esse ganho de eficiência é especialmente relevante para empresas brasileiras, que enfrentam pressões fiscais e de competitividade em um cenário econômico incerto.
### O que isso significa para o Brasil? O Brasil tem sido um terreno fértil para experimentação de novos modelos de negócio em TI. Startups de fintech, bancos digitais e empresas de comércio eletrônico já estão adotando modelos de pagamento por uso, mas ainda pouco exploram a aplicação desse conceito em serviços de integração de sistemas. O FDE pode ser um catalisador, permitindo que empresas brasileiras repensem a forma como contratam serviços de TI.
Um exemplo prático seria uma empresa de logística que, ao contratar um FDE, pode escalar rapidamente a integração de sistemas de rastreamento de caminhões com a plataforma de e‑commerce da empresa. Se a demanda aumenta, o custo cresce proporcionalmente ao uso; se a demanda diminui, o gasto diminui, garantindo uma relação custo‑benefício mais flexível.
Além disso, a atuação do FDE pode ajudar a superar a escassez de talentos especializados em TI no Brasil. Ao invés de contratar engenheiros que se especializam em uma única tecnologia, as empresas podem investir em profissionais que tenham capacidade de entender negócios e tecnologia simultaneamente.
### Perspectivas globais e tendências O modelo FDE da Fujitsu está alinhado com tendências mais amplas do setor de TI. Empresas como Accenture, IBM e Capgemini já têm experimentado modelos de “consultoria como serviço”, onde o faturamento é baseado em resultados e não em horas. A diferença está em como a Fujitsu está integrando essa lógica diretamente na operação de SI, criando uma abordagem híbrida entre consultoria e plataforma.
Geopolíticamente, a estratégia da Fujitsu pode fortalecer a posição da empresa como parceira de escolha para empresas que buscam reduzir a dependência de provedores de TI dos EUA e da Europa. Em um contexto de tensões comerciais e preocupações com segurança da informação, um modelo que oferece transparência e controle pode ser visto como um diferencial competitivo.
### Desafios e riscos Nenhum modelo revolucionário vem sem riscos. A principal preocupação é que a cobrança por uso possa criar incentivos perversos, levando a engenheiros a focar na maximização de horas de uso em vez da qualidade do serviço. Para mitigar isso, a Fujitsu precisará estabelecer métricas de desempenho e KPIs que alinhem a remuneração ao valor entregue.
Outro desafio é a necessidade de mudança cultural nas empresas contratantes. A passagem de um modelo de man-month para pagamento por uso exige uma mentalidade orientada a resultados e a capacidade de gerenciar contratos mais flexíveis. Muitas organizações ainda estão acostumadas a estruturas rígidas e podem resistir à mudança.
### Conclusão A Fujitsu está, de fato, quebrando o “padrão” de SI com o modelo FDE, e essa mudança tem implicações que vão muito além da simples forma de cobrar serviços. Ao alinhar engenheiros com as unidades de negócio, introduzir pagamento por uso e empregar metodologias ágeis, a gigante japonesa está preparando o terreno para uma nova era de consultoria de TI, onde valor e flexibilidade se sobrepõem à burocracia e ao custo fixo.
Para o Brasil e América Latina, a mensagem é clara: empresas que buscam inovação e competitividade precisam repensar não apenas suas tecnologias, mas também a forma como contratam e pagam por serviços de TI. O FDE pode ser a porta de entrada para um ecossistema de TI mais ágil, transparente e orientado a resultados, potencializando o crescimento digital em um cenário global cada vez mais exigente.
A adoção de modelos como o FDE pode ser o diferencial que separa as organizações que lideram a transformação digital das que ficam para trás. A Fujitsu, ao desafiar o status quo, oferece um roteiro que pode ser seguido, adaptado e implementado em diversos contextos, inclusive no Brasil, onde a busca por eficiência e inovação não pode parar.
Fonte original
Nikkei xTECH
