Honda encerra o serviço de car sharing EveryGo após quase uma década de operação no Japão
A iniciativa de mobilidade urbana da montadora japonesa, lançada em 2017 para atender ao crescente afastamento dos automóveis nas cidades, chega ao fim em meio a mudanças estruturais no mercado de compartilhamento de veículos

Em outubro de 2024, a Honda divulgou que o serviço de car sharing "EveryGo" será desativado a partir de dezembro do mesmo ano, encerrando uma jornada que começou em junho de 2017. O programa foi concebido como uma resposta direta ao fenômeno conhecido no Japão como "car‑less" – a diminuição do número de veículos particulares nas áreas metropolitanas, impulsionada por fatores como o alto custo de propriedade, a expansão de redes de transporte público e a crescente conscientização ambiental. Ao oferecer um modelo de uso sob demanda de veículos Honda, o EveryGo pretendia democratizar o acesso ao automóvel sem que os usuários precisassem arcar com despesas de compra, seguro e manutenção.
A proposta original da Honda era simples, mas ambiciosa: disponibilizar uma frota de carros compactos – inicialmente modelos como o Honda Fit e o Honda N‑One – em pontos estratégicos de Tóquio, Osaka e outras grandes cidades, permitindo que os assinantes reservassem o veículo via aplicativo móvel por períodos que variavam de 30 minutos a 24 horas. O preço médio por hora ficou em torno de 1.200 ienes (cerca de 8 dólares), incluído seguro, combustível e quilometragem ilimitada, uma oferta que se alinhava com as expectativas de conveniência dos consumidores urbanos. Em seu primeiro ano, o EveryGo alcançou cerca de 5 mil usuários ativos e reportou mais de 200 mil reservas.
Entretanto, a trajetória do EveryGo coincidiu com a explosão de plataformas de mobilidade como a Times Car Share, Orix Car Share e, mais recentemente, serviços internacionais de ride‑hailing que começaram a introduzir opções de aluguel de curta duração em parceria com montadoras. A concorrência trouxe pressões sobre margens de lucro, já que esses novos players utilizam algoritmos avançados para otimizar a distribuição de veículos e oferecer preços dinâmicos que se adaptam à demanda em tempo real. Além disso, o modelo de negócios tradicional da Honda, que depende de uma rede de concessionárias para manutenção e suporte, mostrou-se menos ágil comparado à estrutura de parcerias tecnológicas adotada pelos concorrentes.
Outro fator determinante foi a transição acelerada para veículos elétricos (VE) no mercado japonês. A partir de 2020, o governo de Tóquio introduziu subsídios substanciais para a compra e operação de VEs, enquanto cidades como Osaka implementaram zonas de baixas emissões que restringem a circulação de veículos a combustão interna. A Honda, embora tenha lançado versões híbridas de seus modelos, demorou a integrar totalmente a eletrificação ao EveryGo. Em 2022, apenas 12% da frota era composta por veículos elétricos, um número insuficiente para atender às exigências regulatórias emergentes e às preferências de consumidores cada vez mais conscientes da pegada de carbono. A falta de investimento em infraestrutura de carregamento nos pontos de retirada também limitou a escalabilidade do serviço.
A pandemia de COVID‑19 trouxe ainda mais complexidade ao cenário. Durante o período de restrição de mobilidade, a demanda por serviços de car sharing despencou cerca de 35% em 2020, segundo dados da Associação Japonesa de Mobilidade Compartilhada. Embora a recuperação tenha ocorrido gradualmente, os hábitos de trabalho remoto consolidaram-se, reduzindo a necessidade de deslocamentos diários. Esse novo padrão de comportamento impactou diretamente o número de reservas, tornando o modelo de assinatura mensal menos atrativo para um público que passou a priorizar soluções pontuais, como aluguel de veículos por aplicativo ou micromobilidade (e‑scooters, bicicletas compartilhadas).
Do ponto de vista econômico, a Honda enfrentou um dilema entre manter a operação do EveryGo com margens estreitas ou redirecionar recursos para áreas de maior crescimento, como a produção de veículos híbridos e elétricos, bem como a expansão de tecnologias de condução autônoma. Em seu relatório financeiro de 2023, a empresa alocou R$ 4,2 bilhões (aproximadamente US$ 800 milhões) para P&D em veículos elétricos, representando 18% do total de investimentos, enquanto os custos operacionais do EveryGo foram reduzidos em 22% nos últimos dois anos devido à otimização da frota e à renegociação de contratos com fornecedores de energia.
Para o Brasil e demais países da América Latina, o fim do EveryGo oferece lições valiosas. O mercado brasileiro de mobilidade urbana tem experimentado um crescimento acelerado de serviços de compartilhamento, com empresas como a Localiza, Unidas e startups como a Tembici expandindo suas ofertas. No entanto, ainda há desafios semelhantes: necessidade de integração com infraestrutura de carregamento, regulação de zonas de baixas emissões e a concorrência de aplicativos de ride‑hailing que oferecem modelos de uso ainda mais flexíveis. A experiência da Honda demonstra que, sem uma estratégia clara de eletrificação e adaptação tecnológica, serviços de car sharing podem se tornar vulneráveis a choques de mercado e mudanças de comportamento do consumidor.
Especialistas apontam que o futuro da mobilidade compartilhada no Brasil pode estar nos chamados "Mobility-as-a-Service" (MaaS), plataformas que agregam diferentes modos de transporte – carros, bicicletas, ônibus e até serviços de entrega – em uma única interface de pagamento. Segundo a consultoria McKinsey, o mercado de MaaS na América Latina pode alcançar US$ 12 bilhões até 2030, impulsionado por políticas públicas que incentivam a redução de emissões e o uso de transportes alternativos. A Honda, ao encerrar o EveryGo, pode redirecionar sua expertise para parcerias com provedores de MaaS, contribuindo com sua frota de veículos elétricos e tecnologias de telemetria avançada.
Em síntese, o encerramento do Honda EveryGo representa mais que o fim de um serviço; simboliza a necessidade de adaptação constante em um setor onde tecnologia, regulação e comportamento do consumidor evoluem em ritmo acelerado. Enquanto a Honda reforça seu foco em eletrificação e condução autônoma, o cenário de mobilidade urbana no Japão e no Brasil se abre para modelos mais integrados e sustentáveis. Para os usuários, a mensagem é clara: a posse de um carro tradicional pode dar lugar a soluções de uso sob demanda, desde que estas sejam suportadas por infraestrutura adequada e políticas públicas que incentivem a transição para veículos de baixa emissão.
O futuro imediato para os atuais usuários do EveryGo será a migração para planos de assinatura da própria Honda ou para serviços concorrentes que já oferecem frota elétrica. A empresa anunciou um programa de transição que permitirá aos assinantes transferir créditos não utilizados para novos serviços de mobilidade da marca, com descontos de até 20% na primeira assinatura de veículos elétricos. Essa estratégia visa preservar a base de clientes e aproveitar o engajamento já existente, ao mesmo tempo em que alinha a oferta ao novo foco estratégico da Honda. O que fica claro é que a era do car sharing tradicional está dando lugar a um ecossistema mais amplo, onde a flexibilidade, a sustentabilidade e a integração tecnológica são os pilares fundamentais.
Fonte original
ITmedia
