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Startups de Clima e IA: O Desafio da Descoberta em um Mundo que Enfrenta 1,5°C

Como a convergência entre inteligência artificial e tecnologias climáticas está redefinindo investimentos, políticas e oportunidades no Brasil e no mundo

MIT Technology Review

A temperatura média global caminha para a marca de 1,5 °C acima dos níveis pré‑indústria, um limite estabelecido no Acordo de Paris para evitar os piores efeitos das mudanças climáticas. Essa realidade, combinada com a retração de compromissos de grandes empresas de tecnologia – que recentemente revisaram metas de neutralidade carbonosa – está gerando um vácuo de liderança que abre espaço para novas empreendedoras. O que antes era dominado por gigantes como Google e Microsoft está se deslocando para um ecossistema de startups de climate tech, que buscam não apenas reduzir emissões, mas também criar ativos de remoção de carbono e otimizar a eficiência dos recursos naturais.

Ao mesmo tempo, a inteligência artificial, que tem sido a bandeira de inovação em setores como saúde, finanças e logística, se depara com um "problema de descoberta": a dificuldade de gerar insights verdadeiramente novos em um mar de dados já saturado. Esse dilema se torna ainda mais crítico quando aplicado ao clima, pois a necessidade de soluções rápidas e escaláveis exige que algoritmos de IA encontrem padrões e proporem intervenções que ainda não foram testadas em campo.

**O mercado de climate tech em expansão**

Segundo o relatório da BloombergNEF de 2023, os investimentos globais em startups de clima ultrapassaram US$ 45 bilhões no último ano, um crescimento de 30 % em relação a 2022. O capital está sendo direcionado a três sub‑segmentos principais: (i) captura, uso e armazenamento de carbono (CCUS); (ii) energia renovável de próxima geração, como hidrogênio verde e baterias de estado sólido; e (iii) plataformas de dados e IA que monitoram emissões, modelam riscos climáticos e otimizam processos industriais. Empresas como Climeworks (Suíça), CarbonCure (Canadá) e Verdant Power (EUA) exemplificam como a combinação de hardware avançado e algoritmos preditivos pode gerar resultados mensuráveis, como a captura de 4 milhões de toneladas de CO₂ ao ano por Climeworks.

Entretanto, a volatilidade das políticas climáticas – com governos dos EUA e da UE revogando incentivos fiscais ou adiando metas de energia limpa – cria um ambiente de incerteza que afeta tanto investidores quanto fundadores. Essa oscilação tem estimulado a busca por modelos de negócios resilientes, capazes de operar independentemente de subsídios governamentais, e reforça a importância de tecnologias de IA que possam maximizar a eficiência dos recursos já disponíveis.

**IA como catalisador de descobertas climáticas**

A aplicação de IA no contexto climático se divide em três frentes principais. Primeiro, o *modelagem preditiva*: algoritmos de aprendizado profundo analisam satélites, sensores de IoT e bases de dados meteorológicas para gerar projeções de eventos extremos com maior resolução espacial. Segundo, a *optimização de processos*: redes neurais ajudam indústrias a reduzir o consumo de energia, ajustando parâmetros em tempo real em usinas, fábricas e sistemas de transporte. Por fim, a *descoberta de materiais*: técnicas como aprendizado por reforço têm sido usadas para identificar novos catalisadores para captura de CO₂ ou eletrolíticos mais estáveis para baterias de lítio‑sódio.

Um exemplo concreto vem da colaboração entre a startup americana *DeepCarbon* e a Universidade de Stanford, que utilizou um modelo de linguagem de grande escala para analisar milhões de patentes de materiais e sugerir 27 compostos promissores para captura direta de ar. Desses, 5 foram sintetizados em laboratório, reduzindo o custo estimado de captura em 12 %. Entretanto, o mesmo estudo destacou o "problema de descoberta": a maioria dos resultados eram variações de soluções já conhecidas, revelando um viés intrínseco dos dados históricos que alimentam a IA.

**Desafios técnicos e éticos**

O dilema da descoberta não se limita à redundância de resultados. Modelos de IA exigem enormes quantidades de energia para treinamento – até 300 toneladas de CO₂ por modelo de linguagem de grande porte, segundo a pesquisa da Universidade de Massachusetts Amherst. Quando esses modelos são empregados para resolver problemas climáticos, há um paradoxo: o próprio processo pode gerar emissões que contrariam o objetivo final. Para mitigar esse efeito, empresas como a *Open Climate AI* estão investindo em treinamento distribuído em data centers alimentados 100 % por energia renovável, além de desenvolver técnicas de "pruning" e quantização que reduzem o consumo computacional em até 70 %.

Outro ponto crítico é a transparência dos algoritmos. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) impõe requisitos de explicabilidade que afetam o uso de modelos de caixa‑preta em decisões regulatórias, como concessões de licenças ambientais. Sem mecanismos claros de auditoria, a adoção de IA em projetos de infraestrutura pode enfrentar resistência de órgãos reguladores e da sociedade civil.

**Impacto econômico e geopolítico**

A integração de IA e climate tech tem implicações profundas para a competitividade global. Países que lideram a produção de energia renovável – como a Dinamarca com a Ørsted ou a Alemanha com a Siemens Energy – também investem em plataformas de IA que otimizam parques eólicos e solares, aumentando a capacidade de integração à rede elétrica. Essa sinergia cria uma vantagem estratégica que pode redefinir fluxos de comércio de energia.

Na América Latina, o cenário é mais heterogêneo. O Brasil, detentor de 12,5 % das reservas mundiais de água doce e de uma das maiores matrizes hidroelétricas, tem potencial para combinar IA com gerenciamento de reservatórios, reduzindo perdas e melhorando a previsão de secas. Projetos como o *SmartWater* da startup *AquaMind* já utilizam sensores de fluxo e algoritmos de aprendizado de máquina para economizar até 15 % da água em grandes usinas hidrelétricas. Simultaneamente, a Argentina e o Chile estão emergindo como hubs de hidrogênio verde, atraindo investimentos que dependem de plataformas digitais para monitorar a produção e certificação de carbono.

**Perspectiva brasileira e latino‑americana**

No Brasil, o Programa Nacional de Inovação (PNI) de 2024 destinou R$ 2,3 bilhões para projetos que unem IA e sustentabilidade, com foco em agricultura de precisão, monitoramento de desmatamento e captura de carbono em biomas tropicais. Startups como *CarbonoBrasil* e *EnergiaAI* já recebem apoio da Finep e do BNDES para desenvolver sensores de espectroscopia que medem a absorção de CO₂ em tempo real em plantações de soja, permitindo ajustes imediatos de fertilizantes e reduzindo emissões de nitrogênio em até 20 %.

Entretanto, a realidade regulatória ainda apresenta gargalos. O novo Código Florestal, embora tenha avançado na proteção de áreas nativas, carece de mecanismos claros para validar créditos de carbono gerados por tecnologias digitais. Essa lacuna abre espaço para que empresas internacionais ofereçam soluções de certificação baseada em blockchain, como a plataforma *CarbonLedger*, que já opera em parceria com a Receita Federal para registrar transações de créditos de carbono.

A adoção de IA também levanta questões de soberania de dados. Grandes provedores de nuvem, predominantemente norte‑americanos, hospedam a maioria das infraestruturas de treinamento de modelos climáticos. Para evitar dependência externa, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações lançou, em 2024, o *DataHub Brasil*, uma iniciativa que oferece recursos computacionais gratuitos para projetos de IA focados em clima, alimentados por energia solar do Nordeste.

**Cenário futuro e recomendações**

O horizonte para as climate tech startups está marcado por três tendências convergentes. Primeiro, a consolidação de plataformas de IA que operam em edge computing, permitindo análise de dados em tempo real sem a necessidade de enviar grandes volumes para a nuvem. Segundo, a crescente demanda por soluções de remoção de carbono que sejam verificáveis e rastreáveis, impulsionada por mercados de crédito emergentes na Europa e na Ásia. Terceiro, a necessidade de políticas públicas que harmonizem incentivos fiscais, padrões de transparência algorítmica e suporte a infraestrutura de dados.

Para empreendedores brasileiros, a estratégia recomendada inclui (i) alavancar o ecossistema de agronegócio para testar algoritmos de otimização de emissões em escala; (ii) buscar parcerias com universidades federais para acesso a supercomputadores alimentados por energia renovável; e (iii) participar de consórcios internacionais que definem padrões de certificação de carbono baseada em IA, garantindo que soluções locais sejam reconhecidas globalmente.

Em suma, a combinação de inteligência artificial e tecnologias climáticas está redefinindo o mapa de investimentos e oportunidades globais. Enquanto o planeta se aproxima de limites críticos de temperatura, o ritmo da descoberta científica deve ser acelerado, mas de forma responsável, equilibrando eficiência energética, transparência e inclusão social. No Brasil, o potencial é imenso, mas depende de políticas coerentes, investimentos estratégicos e da capacidade de transformar dados em ação concreta. O futuro das climate tech startups – e, por extensão, da luta contra as mudanças climáticas – será decidido nos laboratórios de IA, nas fazendas do interior e nos corredores de poder que definirão os próximos acordos climáticos.

Fonte original

MIT Technology Review