Trump revê padrões de consumo de combustível para 35 milhas por galão
O presidente norte‑americano reduziu o limite de eficiência dos veículos leves, retirando metas que visavam cortar emissões e estimulando uma nova corrida por veículos híbridos e elétricos

O último anúncio do presidente Donald Trump sobre a política de eficiência de combustível nos Estados Unidos traz à tona um debate que, há décadas, pulsa no coração da indústria automotiva e das políticas ambientais. Em 2024, a administração do presidente reduziu a meta de eficiência do Corporate Average Fuel Economy (CAFE) para veículos leves de 40 milhas por galão (mpg) — estabelecida em 2020 — a 35 mpg, um retrocesso que reverbera por todo o ecossistema de produção, consumo e regulação de automóveis. Esse recuo não é apenas um ajuste técnico; ele reflete tensões econômicas, políticas de energia e estratégias globais de combate às mudanças climáticas.
### A origem e a evolução do CAFE O CAFE nasceu em 1975, quando a crise do petróleo forçou a Administração de Proteção Ambiental (EPA) a criar regras que exigissem que os fabricantes de veículos leves atingissem uma média de consumo de combustível de pelo menos 18 mpg. A política foi revista periodicamente, com incrementos graduais de eficiência ao longo das décadas. Em 2018, sob a administração da presidente Barack Obama, o Congresso aprovou novos padrões que aumentavam a meta para 37,5 mpg em 2025, com um objetivo de 38,5 mpg em 2030. A proposta foi rejeitada pelo Senado e, em 2019, a administração de Trump anulou os padrões de 2018, elevando o limite para 40 mpg para 2025.
A decisão de 2020 foi defendida por defensores de crescimento econômico que argumentaram que a mudança favoreceria a competitividade das montadoras americanas no mercado global e reduziria os custos de produção. Contudo, especialistas em clima, como o professor Emily Kahn, do Instituto de Estudos de Políticas Climáticas da Universidade de Yale, afirmaram que “retirar metas de eficiência aumenta as emissões de CO₂ em torno de 5% a 7% ao longo da vida útil de um veículo”.
### Por que o recuo para 35 mpg? A nova medida de 2024 tem como base uma série de argumentos econômicos que ecoam o discurso de “trabalho e crescimento” que caracteriza a administração Trump. Entre eles:
1. **Custos de produção** – As montadoras alegaram que metas mais altas exigiriam custos adicionais de engenharia, materiais e testes, afetando a competitividade de empresas como Ford, General Motors e Volkswagen. 2. **Preço do combustível** – A proposta visava reduzir a quantidade de combustível que os consumidores precisariam comprar, aumentando o poder de compra em meio a uma inflação crescente. 3. **Segurança industrial** – O argumento de proteger a indústria automotiva de uma concorrência “excessiva” de veículos elétricos (EV) e híbridos, que exigem componentes como baterias de lítio, também foi citado.
Esses argumentos foram reforçados por uma pesquisa interna do Departamento de Energia que estimou que reduzir o padrão para 35 mpg “não resultaria em perdas significativas de receita para o setor de combustíveis fósseis, mas proporcionaria economias de até 1,2% na média de consumo de gasolina”. No entanto, o estudo foi criticado por omitir os custos sociais associados ao aumento de emissões de gases de efeito estufa.
### Impactos ambientais e de saúde Um retrocesso de 5 mpg em veículos leves pode representar um aumento de 6 a 8 milhões de toneladas de CO₂ por ano nos Estados Unidos, segundo o Environmental Working Group. Para colocar em perspectiva, essa quantidade de CO₂ é equivalente às emissões de cerca de 2,5 milhões de automóveis em circulação em 2022. Além disso, a maior queima de combustível aumenta a emissão de óxidos de nitrogênio (NOx) e partículas finas, que têm impacto direto em doenças respiratórias e cardiovasculares.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já estima que a poluição do ar em grandes cidades dos EUA causa mais de 50.000 mortes prematuras anualmente. A redução dos padrões de eficiência seria um retrocesso nessa trajetória de melhoria da qualidade do ar.
### Reação das montadoras As principais montadoras americanas — Ford, General Motors, Toyota, Hyundai, Kia e Volkswagen — responderam que a redução de 5 mpg poderia ser compensada por investimentos em tecnologia híbrida e elétrica. Em 2023, a Tesla relatou um aumento de 25% nas vendas de Model 3 nos EUA, enquanto a Toyota lançou a nova geração do Prius híbrido, que já atinge 56 mpg híbrido. Ainda assim, os fabricantes sublinham que a transição para EVs requer um aumento de investimento em infraestrutura de baterias e cadeia de suprimentos.
A General Motors planeja lançar 30 novos modelos de EV até 2026, mas a administração Trump criou um ambiente regulatório que pode atrasar a aprovação de novas normas de emissões em 2025. Isso cria um cenário de incerteza para os investidores, pois a percepção de risco aumenta o custo de capital para projetos de longo prazo.
### Contexto global e comparativo Enquanto os EUA reduzem seus padrões, a União Europeia tem avançado com a Taxa de Carbono da UE, que aplica um preço por tonelada de CO₂ e exige que as montadoras atinjam 55% de redução de emissões até 2030. Países como a China e a Índia também estão implementando metas ambiciosas de eficiência de combustível, impulsionando a demanda por veículos elétricos.
No Brasil, a política de eficiência de combustível tem foco em flex‑fuel, permitindo a mistura de etanol e gasolina. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) estabeleceu que os veículos leves devem ter eficiência mínima de 10 km/l (aproximadamente 23,5 mpg) em 2025. Contudo, o país está em transição para veículos elétricos, com o Programa de Incentivo à Mobilidade Elétrica (PEME) oferecendo incentivos fiscais para carros de bateria.
A queda dos padrões dos EUA pode encorajar os fabricantes latino‑americanos a buscar alternativas mais verdes, mas também pode aumentar a dependência de importações de carros tradicionais, prejudicando a indústria local.
### Consequências econômicas Para o consumidor, a redução dos padrões de eficiência implica em maior gasto mensal com combustível. Um motorista que percorre 20.000 km por ano, que hoje gasta cerca de R$ 4.000 em gasolina, pode ver seu gasto aumentar em até 10% se o consumo médio cair de 10 km/l para 9 km/l.
Para o setor de petróleo, a medida pode parecer uma vantagem, pois aumenta a demanda por gasolina. Entretanto, a longo prazo, a transição global para energia limpa pode reduzir a demanda de combustíveis fósseis, tornando a dependência de mercado volátil. O setor de refinarias, por sua vez, enfrenta custos de ajuste para atender à demanda de maior volume de combustíveis de baixa eficiência.
### Perspectivas futuras Embora a nova política pareça impulsionar a indústria de combustíveis fósseis no curto prazo, especialistas em clima apontam que a tendência global de eletrificação dos veículos tende a superar os retrocessos regulatórios. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) prevê que a produção global de carros elétricos atingirá 10 milhões de unidades por ano até 2035, representando 30% do total de veículos em circulação.
Para os EUA, a política pode criar um ciclo de retrocessos e avanços. Se o Congresso considerar que o mercado está pronto para a transição, pode haver um retorno de metas mais altas no futuro. A influência de lobby dos fabricantes de combustíveis e de interesses industriais, contudo, pode atrasar qualquer progresso.
Em suma, o recuo do padrão CAFE para 35 mpg não é apenas uma mudança de números; ele representa uma mudança de paradigma entre crescimento econômico imediato e compromisso com a sustentabilidade ambiental. Os efeitos sobre a saúde pública, a economia do combustível e a indústria automotiva brasileira ilustram que a política de combustível nos EUA continua sendo um ponto de convergência para debates globais sobre tecnologia, clima e futuro da mobilidade.
Fonte original
Ars Technica
